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Racismo distraído Luis Fernando Veríssimo - O Globo - 21/04 Nosso racismo tem a desculpa de ser distraído. O que nos absolve é que não nos damos conta. O Grafite não considera o seu apelido racista. Como é negro e comprido, deve achar o apelido bem bolado. Também poderia ser chamado de Clarinete e acharia normal e simpático. Assim como até negro usa “negrão” sem pensar, tem gente que se recusa a chamar negro sem o diminutivo, mesmo que ele ou ela tenha o tamanho do Grafite, porque não quer ser grosseiro. Implícita neste racismo que não se reconhece está a idéia de que caricaturar carinhosamente ou infantilizar o negro é uma maneira de consolá-lo pela sua condição de diferente. Entre o “negrão” e o “negrinho” está a nossa incapacidade de dar nome certo ao preconceito. E não é só com negros. Há anos que o humor brasileiro recorre a estereótipos raciais sem medir o insulto: o judeu sempre retratado como um avarento de sotaque carregado, o japonês invariavelmente bobo, etc., além do negro em suas várias versões de primitivo divertido. Isto melhorou de uns tempos para cá. A moda do politicamente correto, com todos os seus exageros, teve o mérito de chamar atenção para a grosseria inconsciente em tantos dos nossos hábitos culturais. Da mesma maneira que esse carnaval que fizeram com o insulto do argentino ao Grafite, em São Paulo, com todos os seus exageros, serve para dar publicidade ao assunto racismo e alertar para as suas possíveis conseqüências. Não, não se prevêem aparelhos de escuta permanentemente virados para o campo e a polícia interrompendo o jogo a cada troca de epítetos raciais. As confusões que isto criaria seriam enormes. — Vamos lá. Ele chamou o adversário de #x%*wqf! — Espera aí! #x%*wqf! não é raça. Ou é? Mas que foi bem feito, foi. 23 de abril Foi dia de Jorge Salve Jorge !!!! * * * * * (Puffy Daddy, Lenny Kravitz, Loon e Pharell)
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