"Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário".
Caio Fernando Abreu
12 de junho de 2005




EXISTE VIDA INTELIGENTE APESAR DOS QUILOS A MAIS....


Silvana Duboc


Tive pesadelos horríveis essa noite. Eram pizzas, tortas, sanduíches, balas, barras de chocolate, refrigerantes, sorvetes que desfilavam na minha frente e eu tentava alcançá-los, mas não conseguia. Acordei suando, corri até a geladeira e comi a metade de um pudim de leite condensado para me acalmar.

Não adianta eu querer me intitular fofinha, nem dizer que não sei porque engordo com tanta facilidade. A verdade é que eu sou é gorda, e adoro fartura na hora de comer.

O maior sofrimento de alguém que excedeu nos quilos, como eu, nem chega a ser o próprio corpo. O que realmente nos faz sofrer é a crueldade da mídia. Propagandas em todo canto, outdoors, comerciais na televisão, no rádio, nas revistas.

PERCA DEZ QUILOS EM APENAS UMA SEMANA!
(isso é mentira!)

O VERÃO ESTÁ CHEGANDO, PREPARE-SE PARA ELE!
(já me preparei, comprei um maiô tamanho G!)

CHEGOU A DIETA DO SÉCULO!
(todas as dietas são iguais, depende apenas de desejar fazê-la ou não!)

TENHA FORÇA DE VONTADE E SE TRANSFORME NUMA GISELE BUNDCHEN!
(mas quem disse que quero me transformar naquele bambu?)

Não suporto mais ler essas manchetes. Sinto-me acuada, em débito comigo mesma. A sensação que tenho é que só as mulheres magras são capazes de realizar algo interessante em suas vidas.

Por que uma gorda não pode ter sucesso profissional, num relacionamento, ser uma boa mãe, uma boa amiga? Quem definiu como prioridade ser magra para vencer na vida?

E por que uma gorda também não pode ser bonita, sensual?

A sociedade, cada vez mais, se condiciona a ligar felicidade à magreza. Com isso os homens, mesmo os gordos, desejam uma mulher magra, esbelta, como se não tivessem espelho em casa.

Muitas daquelas que começam a pirar por causa do seu peso e não conseguem emagrecer, se lançam em aventuras que nem sempre estão aptas para enfrentar.

Por exemplo, a cirurgia de redução de estômago. Já fiquei sabendo de óbitos, de pessoas que perderam a alegria de viver depois que emagreceram. Já está provado que, embora ela seja uma grande descoberta, nem todos têm condições de enfrentá-la.

Isso sem falar que, para realizar uma cirurgia de tal porte, é necessário um profissional extremamente capacitado, uma assistência psicológica de primeira e grana.

Ah, com tantos problemas eu vou arrumar mais esse? Já cuido da minha saúde, isso é de suma importância para mim. Basta! Eu sei que de uns tempos para cá não é mais permitido para uma mulher ter um pneuzinho mínimo, uma barriguinha um pouco mais acentuada. É a lei do cão. Ou é magra ou desaparece da sociedade.

As mulheres, por sua vez, além da mídia, são também culpadas disso. Parece que todas desenvolveram uma psicose: a de ter o corpo perfeito, escultural, invejável.

Os valores com isso começaram a mudar. Ser inteligente, agradável, simpática, amável, sincera, já não tem o mesmo peso que tinha tempos atrás. O que pesa é o peso da mulher.

Nasci gorda, fui uma adolescente gorda, continuei gorda ao longo da vida, morrerei gorda. Nada nem ninguém irá me encher de complexos e nem me fará carregar essa culpa.

É bem verdade que, algumas vezes, terei pesadelos e passarei por situações constrangedoras por causa disso, mas eu descobri que existe vida inteligente apesar dos meus quilos a mais. E isso é que importa.





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