"Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário".
Caio Fernando Abreu
23 de junho de 2005




Finalmente vemos a cara suja do Brasil

(Arnaldo Jabor)
21/06/05


Não sei o que vai nos acontecer. Ninguém sabe. Mas aprendemos muito sobre o Brasil com essa crise. É um esplendoroso universo de fatos, de gestos, de caras, de palavras que eclodiram diante de nossos olhos nas últimas semanas. Meu Deus, que riqueza, que profusão de cores e ritmos em nossa consciência política! Que prodigiosa fartura de novidades da sordidez social, tão fecunda quanto a beleza de nossas matas, cachoeiras e cachoeirinhas, nossas várzeas e flores. Estudos sociais, filosofias políticas, nada entra na cabeça do povo; mas as imagens na TV, nos jornais, penetram em nossa cabeça. Estas ficarão:

A mão displicente do Maurício Marinho pegando os três mil reais que surgem no canto do quadro e ele embolsa, deixando-a escorregar para dentro do paletó, com a calma de quem recebe um troco de cafezinho, e o espetáculo shakesperiano de Jefferson na Câmara, com sua camisa lilás de candomblé, tão Brasil, tão nosso, sua impecável ausência de suor, seu rosto frio, seus biquinhos, suas mãos ondulantes, a verdade e a mentira num longo beijo-de-língua, suas pausas dramáticas... ahhh... suas pausas que poucos atores ousariam, longas, criando a suspension of disbelief, a expectativa, culminando em dedos espetados, sorrisos sardônicos, e “Vossas Excelências” para todo lado e a maravilhosa evocação da cena de Jeff (cada país tem o Thomas Jefferson que merece...) sentado na privada conversando com o sorveteiro em Cabo Frio, e o referido sorveteiro-laranja-de-rádio carregando sua mulher de baby doll para a cama, e seus olhos de Ricardo III gordo fitando Waldemar da Costa Neto e Sandro Mabel e Pedro Correa e tantos e apontando-lhes o dedo, com a autoridade de um catedrático. Oh... Deus, como temos aprendido nessas semanas com esse grande didata, maior que o predecessor PC Farias, revelando-nos esse mundo que se nos abre como uma máquina clara, e o suor desgrenhado de Waldemar e a lividez de Sandro Mabel se defendendo em nome dos filhos e dos seus 3.500 empregados mal pagos ouvindo tudo, gozando com sua desdita, e os rostos em pânico naquela sala do Congresso, caras de fuinhas, de furões, de cangurus, de tamanduás, rostos “goyescos” como nunca em Brasília, uma exposição de bichos covardes, uma feira agropecuária ali na Câmara. E as palavras solenes? “Minha honra”, “aleivosias contra mim”, “nobres deputados”, ostentando pureza, angelitude, candor, pudicícia, melindres, pejo, com palavras encobrindo a impudicícia, a pacholice, o despudor, a bilontragem nas cumbucas, o medo, o medo em todos os olhos, o rosto apavorado de Genoino ocultando a depressão do Delúbio e a carequinha falante do Marcos Valério de Minas, com tentáculos de bilhões, oh Senhor... quanto estamos aprendendo, vendo finalmente a secular engrenagem latrinária que funciona muito abaixo dos esgotos, dos encanamentos, abaixo das ilusões dos cientistas políticos da Pátria, a verdade muito abaixo do “cu-de-cobra”, os intestinos da política ao vivo, e a ex-mulher de Waldemar, Maria Chistina, em uma escada de ouro e bronze ameaçando cantar verdades sobre o ex-marido, tudo misturado num sarapatel, o amor, o sexo, o público e o privado no país, que delícia, que doutorado sobre nós mesmos, e o Genu, o recém-chegado “João Mercedão”, valete nos repasses na pensão do José Janene do “mensalão”, esse nome proxenético como uma menstruação, e os bens adquiridos e os súbitos aumentos de patrimônio, as declarações de renda falsas, os carrões, os iates, a casas com piscinas em forma de vaginas, as surubas lobistas no Lago Sul, os “fins justificando os meios” em dólar dentro de maletas pretas com a estrela vermelha do PT e os diagramas das estatais, as estatais endinheiradas com o afilhado desse aqui e ali o filhinho do outro e acolá o gatuno crapuloso, venéreo de fulano e sicrano e, sempre, em cada nicho, em cada buraco de rato, um ladravaz, um trabuqueiro na espreita. E as coxas da loura de Severino, a calcinha aparecendo e sua imensa mulher ogra esperando-o em casa com o cacete na mão? E a sujidade, a porquidão, a espurcícia, a sebentice, a esterqueira, viajando diante de nossos olhos nacionais? E as ameaças de ações penais, as calúnias, injúrias e difamações e os danos morais, e as indenizações pretendidas, e a euforia de advogados, e as promessas a Jesus para proteger os salteadores em pânico, as mandingas, os “trabalhos”, os despachos, os banhos de descarrego, as galinhas mortas na encruzilhada e as esposas histéricas com as relações sexuais rareando em Brasília e a súbita tristeza no outrora eufórico Piantella, e o uísque caindo mal e as barrigas murmurantes, as diarréias, as prisões de ventre, as flatulências fétidas, os arrotos nervosos, os vômitos, tudo compondo o grande painel barroco sujo da nacionalidade e a merda... ah... a merda voltejando no ventilador, graças à sobra do Collor (Collor de namorada nova, sob as pragas de Rosane) e as lágrimas de Lula (sim ou não?), e as lágrimas de Dirceu, e as gargalhadas de Jeff em casa e as óperas berradas na janela, oh Alá, que beleza, e a certeza que eles têm de que não há aparelho do Estado, da Polícia ou da Justiça (ahhh...) que dê conta deste labirinto de escrotidões, e os contratos, subcontratos, aditamentos, troca-trocas e as antigas corrupções esquecidas, onde andará Maluf, onde Luís Estevão e os vampiros e a Usimar do Maranhão tão bem descrita por Sarney outro dia citando Antonio Vieira, que “alef” de maravilhas, onde tudo se conecta, desde a prefeitura de Petrópolis até a caixinha mais remota de uma rádio de Cabo Frio, tudo vindo a furo, (onde encontrar tanta beleza?) canetas Montblanc distribuídas por lobistas, motoristas com sacos de grana, unhas desencravadas, laranjas, “enrolations”, onde tudo isso, senão aqui, nesta terra abençoada por Deus? Onde encontrar tantos ladrões, pichelingues, pandilheiros, ratoneiros, agadanhadores, rapinantes, alfaneques, embusteiros, marraxos, quadrilheiros, flibusteiros? Onde?





Layout, mais uma vez, descaradamente modificado por Gueixa Bania® com a devida autorização da Chez Julia.