"Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário".
Caio Fernando Abreu
21 de janeiro de 2006

Vida negligente na madrugada

Normando Moura
(Coisas da Normandia)



      Outro dia, no Altas Horas, uma especialista (afim de promover mais um filme da Globo Produções) foi junto com o Caco Ciocler e Ingrid Guimarães defender aquelas pessoas que traem.
      Trair é normal e faz parte da vida foi a conclusão geral. Claro que os protestos do auditório e da vocalista do Babado Novo (nem sei o nome da guria que imita a Ivete Zangalo - coitada) também aderiu aos protestos, que fizeram os participantes dizerem que é normal, mas que a gente tem que tomar cuidado pra não magoar as pessoas e terminar a relação logo que se começa a esfriar, pra evitar uma traição casual (?).
      Bem, não defendo a tese medieval que diz que "casou? agora agüenta!", mas, é bem verdade que boa parte das separações e traições se devem à falta de humildade e o que os teólogos chamam de dureza do coração.
      Simplesmente achamos que temos o direito de ser feliz imediatamente e, para conseguir uma permissão de quem queremos conquistar fazemos, logo no início do relacionamento, promessas e planos para uma vida a dois longa e duradoura. Antes mesmo de se conhecer metade dos traços da personalidade.
      Aí, então, achamos que Pedro Bloch tava errado quando disse que somos senhores da palavra não-dita, porque da dita somos escravos. "Eu errei com você e só assim pude entender que o grande mal que eu fiz foi a mim mesmo", já cantava Marisa Monte.
      Em suma, somos mimados pela educação da segunda metade do século XX que diz que não precisamos ser tão disciplinados e que se dane o mundo se não concorda conosco. Os cuidados obrigatórios de namoro e noivado são considerados retrógrados e invasivos. E esquece-se que não podemos ser felizes de verdade se olharmos somente para nossos umbigos.
      Aquela história de regar a planta, todos devem ceder, e um sempre cede mais que o outro tiveram ligeira mudança e passam a ser: regue minha planta que tlavez eu regue a sua, você cede primeiro, e eu é que não vou abrir mão.

Vale o pensamento pós-socrático: "comamos e bebamos que amanhã certamente morreremos".





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